2009'09 Itália, São Marino, Vaticano (#11) - Luz de Presença | Oh! Doce Saudade
Milano, Como, Rimini, San Marino, Bologna, Firenze, Roma, Città del Vaticano, Napoli, Palermo

Milano, Como, Rimini, San Marino, Bologna, Firenze, Roma, Città del Vaticano, Napoli, Palermo

19 de Setembro a 2 de Outubro de 2009

Memórias

Uma viagem por Itália impõe escolhas ponderadas dada a riqueza e a grandiosidade da oferta. Os pontos de interesse, dispersos no espaço, sucedem-se sem parar. Há história, cultura, moda, religião… E há praias, montanhas, lagos, cidades, vilas e aldeias… Tal como uma criança facilmente se ousa querer tudo mas o tempo estabelece limites.

Definiu-se Milão como ponto de partida. Poderia dizer que a cidade é elegante ou sofisticada mas estaria a divagar sobre conceitos que me são estranhos. Nota-se que a aparência é uma preocupação interiorizada. Vestem-se marcas sonantes com preços genuinamente ensurdecedores. Completam-se os decotes com a maquilhagem cuidada porque a imagem ainda sugere mais que mil palavras.

A cidade isoladamente não fascina. A Piazza Duomo, a Piazza della Scala e a Galleria Vittorio Emanuele II são palcos onde a componente humana ofusca a arquitectónica. No Parco Sempione, junto ao Castello Sforzesco, encontrou-se algo mais real e o ambiente descontraído permitiu crer que existem pessoas comuns. O museu Pinacoteca di Brera repleto de pinturas revelou-se cansativo e repetitivo nos temas religiosos. Enquanto se devoram muitos e bons gelados, Milão sobressai pelo desfile de gente gira.


Junto ao Castello Sforzesco, Milão

Junto ao Castello Sforzesco, Milão

A norte da segunda maior cidade italiana encontra-se o vasto Lago Como que recebeu o nome da cidade situada na sua extremidade sul. A cidade é pequena e cuidada o que potencia a simpatia e torna a visita aprazível. No entanto, o interesse de Como depende efectivamente das águas que se dizem profundas. O lago é uma ternura, as casas e as povoações equilibram-se nas íngremes encostas espreitando por entre as árvores que adensam a paisagem. De barco chegou-se às pequeníssimas cidades de Torno e de Cernobbio. Mais tarde, de funicular, subiu-se até Brunate. A existência de saborosos gelados à beira do lago ajuda a consolidar a ideia de que por ali a vida tem qualidade.

Rimini, uma estância balnear na margem do Mar Adriático, foi a paragem que se seguiu. As praias de areia, que ofendem as que na outra margem servem a Croácia, são concessionadas. O acesso à areia, controlado por pequenos portões, é principescamente pago e oferece uma panóplia de serviços complementares: espreguiçadeiras, balneários, carrosséis, bares, ginásios, campos de jogos… A praia transforma-se numa feira popular elitista sem qualquer piada. Um dia haverá em que o Sol nascerá realmente para todos.

O centro da cidade está afastado da areia e do mar por inúmeras vivendas e hotéis que na época alta servem de refúgio aos forasteiros. Entre as simpáticas ruas que unem e cercam a Piazza Tre Martiri e a Piazza Cavour deixam-se os minutos fluir. E experimentam-se mais dois sabores coloridamente gelados no topo de um cone de baunilha, enquanto o tempo passa.

São Marino, o país, é extremamente pequeno. É uma mera constatação, não uma ofensa. A cidade, com o mesmo nome, é agradável e uma dádiva para o olhar porém sem o apoio logístico de Rimini a mais antiga república do mundo estaria praticamente inacessível. O cume do Monte Titano, integrado na Cordilheira dos Apeninos, apenas é alcançado de autocarro que parte com intervalos superiores a uma hora e não existem linhas-férreas nem qualquer aeroporto…


A caminho da Torre Cesta, São Marino

A caminho da Torre Cesta, São Marino

O centro da cidade é devoto aos turistas que voluntariamente se hipnotizam com a suposta inexistência de carga fiscal. No expoente máximo dos seus instintos consumistas colectam até à insanidade do cartão de crédito! Ignorando estes comportamentos pecaminosos, que se tornam cómicos, as ruas são acolhedoras e apetece demorar no pico do monte. Na cidade destacam-se as muralhas e as três torres. A panorâmica turvada pelo nevoeiro é pacífica se ignorarmos os sanguinários apelos da exposição “Vampiri e Licantropi”.

O regresso ao interior italiano culminou em Bolonha que é reconhecida além fronteiras pela sua antiquíssima universidade, pela cor avermelhada generalizada nas fachadas dos edifícios e pelas intermináveis arcadas que quase todas as construções adoptaram. A cidade não foi uma desilusão porque testemunhos prévios anteciparam uma cidade feia com poucos elementos de interesse. Salvam-se as centrais Piazza Maggiore, a Piazza del Nettuno. As grandiosas Torri degli Asinelli e Torri Garisenda encontravam-se isoladas por profundas obras de manutenção… Salvam-se os gelados que saciam a gula e eternizam o momento.

Florença, por seu lado, é recorrentemente elogiada. E é cativante! A cidade conjuga, num equilíbrio quase pleno entre beleza e funcionalidade, infinitas praças fabulosas: Piazza San Marco, Piazza della Santissima Annunziata, Piazza di San Lorenzo, Piazza di Maria Novella, Piazza di Santa Croce, Piazza de Pitti, Piazza della Repubblica, e ainda as principescamente adornadas Piazza di San Giovanni, Piazza del Duomo e Piazza della Signoria com as suas exuberantes e frias estátuas de pedra. Tudo parece estar próximo.


Na Piazza di Maria Novella, Florença

Na Piazza di Maria Novella, Florença

A Ponte Vecchio torna-se irrelevante perante tanta riqueza. As pessoas não ostentam um requinte desnecessário e do alto da Piazzale Michelangelo é possível contemplar toda cidade e o estreito Rio Arno que a atravessa. Entrou-se ainda no escultural Museo Nazionale del Bargello e no Museo Nazionale Alinari della Fotografia sem que nenhum fascinasse tanto como a sempre presente essência cremosa do gelado italiano.

Rumou-se mais a sul até à milenar Roma. A imensidão da cidade possibilita uma panóplia infinita de combinações entre o que fazer e ver. Tamanha oferta causa uma constante e intensa afluência de turistas que se movem lentamente e de forma compacta sem cessar. Não admira que os moradores, cuja actividade profissional não depende do turismo, não alimentem grande simpatia com os portadores de máquinas fotográficas.

Não é possível sintetizar Roma numa única imagem. As centenas de igrejas competem entre si e as praças animam-se com a água que escorre nas fontes rejubilantes. Para que conste, no tempo possível palmilhou-se a Piazzale Porta Pia, a Piazza Barberini, a Piazza di Spagna, a escadaria Scalinata della Trinità dei Monti, a Piazza del Popolo, a impressionante e rica Piazza Navona, o Campo De’Fiori, a Piazza della Rotonda, a Piazza di Pietra, a Piazza de Montecitorio, a Piazza Colonna, a famosa Piazza di Trevi com a sua fonte, a Piazza del Quirinale, a Piazza del Esquilino, a Piazza della Repubblica, a Piazza Vittorio Emanuele II, a Piazza Venezia e a Isola Tiberina. E a lista podia continuar.


Numa das três impressionantes fontes da Piazza Navona, Roma

Numa das três impressionantes fontes da Piazza Navona, Roma

Visitou-se o Palazzo del Quirinale, a Basilica di Santa Maria ad Martyres, comummente designado por Panteão, o Castel Sant’Angelo, onde uma pequena multidão aguardava pacientemente o pôr-do-sol, e o Parco Colle Oppio. Percorreram-se ainda as monumentais ruínas do império romano, dispersas do Colosseo até ao Teatro di Marcelo, com passagem demorada pelo Palatino e Foro Romano para alimentar os sonhos. Gelados também não faltaram e mereceram uma dedicação plena e repetitiva durante demoradas pausas.

No seio de Roma há um enclave que aloja o Vaticano, possessão da omnipresente Santa Sé. Questões administrativas à parte, o Vaticano visa assegurar a manutenção e a difusão dos princípios católicos utilizando nesta cruzada o mínimo espaço necessário para assegurar a liberdade espiritual… Especularia eu que a ideia patrocinaria um nobre Voto de Pobreza não houvesse exagerada sumptuosidade na Basilica di San Pietro e em toda a sua envolvente. Não querendo emitir juízos de valor limito-me apenas a referir que pisei também a Tomba di Pietro, a cripta onde diversos papas estão sepultados, e o Musei Vaticani. Após um labirinto de corredores, escadas e escadinhas no interior do museu culminou-se na ambicionada Cappella Sistina onde sistemáticas exclamações dos elementos da segurança impunham com vigor: “Silence! No pictures! No video!”. Deus tudo perdoará aos crentes que teimaram em não ouvir tais berros.


Na Piazza San Pietro, Vaticano

Na Piazza San Pietro, Vaticano

Regressou-se ao comboio com destino a Nápoles. Leituras prévias indicavam que as apertadas ruas da cidade eram animadas durante o dia pelo comércio e que à noite se tornavam sinistras. A amplitude do adjectivo “sinistro” é imprecisa mas justifica-se pelo tom cordial que se deseja manter. De facto a cidade não prima pela beleza. As caras são mais sérias, a roupa menos vanguardista e as ruas pecam pela sujidade. O lixo transborda dos contentores e reproduz-se exponencialmente no chão. Os próprios edifícios reflectem a ausência de luz e o peso dos semblantes. Nos passeios acumulam-se pessoas que aí sobrevivem em uníssono com uma realidade banalizada pela sociedade.

Percorreu-se a envolvente da Duomo, as estreitas ruas do Quartieri S. Lorenzo até à Piazza del Gesù Nuovo. Do cume da Piazzale S. Martino a visão deveria alcançar o Vesúvio mas com o indesejado nevoeiro restou apenas a crença que ele se escondia além da visão. Desceu-se para a Via Toledo e Quartieri Spagnoli, com passagem pela Piazza Plebiscito, e visitou-se ainda o Castel Dell’Ovo.


Em frente ao Palazzo Reale, Nápoles

Em frente ao Palazzo Reale, Nápoles

Ainda na sombra do Vesúvio estão as antigas e vizinhas cidades romanas de Pompeii e Herculaneum. Ambas foram vítimas da fúria da lava, do fogo e das cinzas que a terra expeliu no ano 79 DC. As ruínas agora desenterradas estão substancialmente destruídas mas as escavações permitem contemplar a imensidão de Pompeii. Em ambos os locais, é possível entrar no que resta das casas e perceber que existia requinte naquelas formas de vida. O conteúdo está nos detalhes, não nas toneladas de pedras que resistem empilhadas.

A Itália continental foi abandonada à noite de barco e a com a madrugada pisou-se terra em Palermo, na mediterrânea ilha da Sicília. Os locais de referência da cidade podem ser percorridos em poucas horas. Passeou-se pela Piazza Castelnuovo, Piazza Giuseppe Verdi, Piazza Bellini com a sua bela Fontana Pretoria, Piazza S. Spirito, Villa A Mare, Villa Giulia, Piazza della Cattedrale, e Villa Bonanno. Uniu-se a Porta Felice à Porta Nuova. A cidade proporcionou um agradável dia e os gelados impuseram-se deliciosos como se nada mais doce existisse para o paladar!


Num banco junto ao mar na Villa A Mare, Palermo

Num banco junto ao mar na Villa A Mare, Palermo

No último dia, considerando o cansaço acumulado nos pés e a preguiça extrema, optou-se por louvar os deuses da praia. Perto, em Mondello, a areia gratuita convidou a esquecer que o mês de Outubro já era real. A água quente do mar compensou o Sol que no céu ia perdendo gradualmente a sua intensidade… As nuvens instalaram-se silenciosamente e uns pingos de chuva decretaram, pouco depois da hora de almoço, que a ousadia veraneante estava concluída.

Com um gelado já a aconchegar a alma nada parecia grave. A chuva abrandou até parar mas regressou recheada com relâmpagos e trovões demolidores. As férias terminaram molhadas, absolutamente encharcadas.

Não mais se devoraram gelados e uma angústia nutritiva pairou no ar. Por fim, os cappuccinos preencheram o vazio coroando uma longa e preenchida viagem apenas desgastada cirurgicamente pela irrelevante simpatia italiana. O vivido será recorrentemente recordado com intenso agrado. E quando se desfazem as malas, entre as paredes que nos viram partir, pouco mais interessa além do sorriso alojado nos lábios.


Fotografias

  • A catedral da cidade @ Piazza Duomo, Milão

  • Ao lado da catedral a Galleria Vittorio Emanuele II, um monumento à moda @ Piazza Duomo, Milão

  • No interior da iluminada galeria as lojas são ofensivamente caras @ Galleria Vittorio Emanuele II, Milão

  • A entrada principal do Castello Sforzesco @ Piazza Castello, Milão

  • Junto ao Castello Sforzesco há espaço para descansar @ Parco Sempione, Milão

  • A cidade é calma sem multidões nem confusões @ Piazza Alessandro Volta, Como

  • Monumento ai Caduti per Servizio @ Piazzale San Rocchetto, Como

  • A cidade de Como vista do topo da montanha @ Brunate

  • A pequena cidade de Torno vista do Lago Como @ Torno

  • Tempietto di Sant'Antonio na principal praça de Rimini @ Piazza Tre Martiri, Rimini

  • A areia da praia é ocupada por inúmeras infra-estruturas @ Rimini

  • A praia é em si uma tentação @ Rimini

  • A Guardia del Consiglio e a bandeira de São Marino @ Via Eugippo, São Marino

  • A Torre Guaita vista da segunda torre @ Torre Cesta, São Marino

  • Numa zona calma contemplam-se as muralhas, os jardins e as estátuas @ Contrada del Pianello, São Marino

  • Noutras zonas os turistas amotinam-se nas ruas e nas lojas @ Via Basilicius, São Marino

  • As arcadas estão presentes na maioria dos edifícios @ Via Luigi Carlo Farini, Bolonha

  • O Palazzo d'Accursio @ Piazza Maggiore, Bolonha

  • Da esquerda para a direita: Torre Asinelli e Torre Garisenda @ Piazza di Porta Ravegnana, Bolonha

  • Pormenor da fachada principal da catedral @ Piazza del Duomo, Florença

  • A pacata praça convida ao descanso @ Piazza di Maria Novella, Florença

  • Panorâmica da geral da praça repleta de estátuas @ Piazza della Signoria, Florença

  • A Fontana del Porcellino @ Loggia del Mercato Nuovo, Florença

  • A vista, que alcança toda a cidade, é fabulosa @ Piazzale Michelangelo, Florença

  • Uma das mil fontes de Roma! @ Piazza Barberini, Roma

  • Sem cessar as pessoas ocupam e instalam-se em todos os cantos da cidade @ Piazza di Spagna, Roma

  • A praça com mais esplendor da capital italiana @ Piazza Navona, Roma

  • A cinematográfica Fontana di Trevi @ Piazza di Trevi, Roma

  • O Castel Sant'Angelo na margem do rio Tevere @ Lungotevere Tor di Nona, Roma

  • Pormenor da entrada do Basilica di Santa Maria ad Martyres, o Panteão @ Piazza della Rotonda, Roma

  • Ao fundo, o Colosseo romano @ Parco Colle Oppio, Roma

  • As ruínas do estádio @ Palatino, Roma

  • O pôr-do-sol atrás da Basilica di San Pietro visto do topo do Castel Sant’Angelo @ Vaticano

  • Ao fundo a Basilica di San Pietro @ Piazza San Pietro, Vaticano

  • Elementos da Guardia Svizzera Pontificia, a Guarda Papal @ Vaticano

  • A escadaria do museu composta por duas espirais concêntricas @ Musei Vaticani, Vaticano

  • Do castelo, já dentro de água, uma perspectiva da zona ocidental da cidade @ Castel Dell’Ovo, Nápoles

  • Uma das imensas ruas apertadas onde o comércio salta para fora das lojas @ Via S. Gregorio Armeno, Nápoles

  • O nevoeiro esconde o Vesúvio @ Piazzale S. Martino, Nápoles

  • O arco no início da Via di Mercurio @ Pompeii

  • No interior, muito bem conservado, de um balneário público @ Pompeii

  • O anfiteatro @ Pompeii

  • Um detalhe da decoração da Casa di Nettuno e Anfitrite @ Herculaneum

  • Algumas das estátuas no perímetro da catedral @ Piazza della Cattedrale, Palermo

  • O coreto no pequeno jardim da praça @ Piazza Castelnuovo, Palermo

  • O interior do jardim, próximo do Orto Botanico @ Villa Giulia, Palermo

Powered by SmugMug Log In